05 outubro, 2008

Gota Úrica

A gota úrica (GU), ou apenas gota, é uma doença provocada pela deposição de cristais de monourato de sódio (MUS) nos tecidos orgânicos devido à hiperuricemia (aumento dos níveis de ácido úrico no sangue).

Deste estado de saturação úrica, podem resultar uma ou mais das seguintes manifestações clínicas: ataque agudo (artrite) de gota; tofos gotosos (agregado de cristais de MUS que se depositam nas articulações, cartilagens, ossos e tecidos moles; nefropatia (doença renal) gotosa e nefrolitíase (cálculos renais) úrica.Os níveis de ácido úrico (AU) no sangue dependem da idade e do sexo. São maiores nos homens, após a puberdade, e aumentam nas mulheres depois da menopausa. Diz-se que existe hiperuricemia, quando os níveis séricos de AU são superiores a 7 mg/dl no homem e 6 mg/dl na mulher.

A gota é rara nos homens antes dos 30 anos e nas mulheres antes da menopausa. A idade em que ocorre o pico de início da gota é entre os 40 e os 50 anos no homem e após os 60 anos na mulher.

Prevalência de GU

A frequência da GU aumenta com a idade e com concentrações mais elevadas de AU no sangue. A sua prevalência é muito variável entre países e raças, mas andará entre os 5-28 casos por 1000 nos homens e 1-6 casos por 1000 nas mulheres. A relação homem-mulher é de sete ou mais para um. O ácido úrico é o produto final da degradação das purinas que, como veremos adiante, existem com abundância em muitos alimentos.

A hiperuricemia pode aparecer por vários motivos: produção excessiva de uratos, seja endógena (insuficiências enzimáticas que levam ao aumento da produção) ou exógena (dieta com muitos alimentos ricos em purinas); a excreção insuficiente – eliminação anormal dos uratos pelo rim – e os dois anteriores mecanismos combinados. A diminuição da excreção renal do AU pode ser devida a vários medicamentos, nomeadamente a aspirina, os diuréticos e as tuberculostáticos, e ao consumo excessivo de álcool.

Estádios da artrite gotosa

A artrite gotosa tem quatro estádios: hiperuricemia assintomática (ácido úrico elevado no sangue sem qualquer sintoma); crise (artrite) gotosa aguda; período intercrítico (intervalos completamente livres de sintomas existentes entre as crises agudas de gota) e gota tofácea crónica (existência de depósitos de cristais de MUS em diversas localizações).As crises agudas de gota iniciais atingem, habitualmente, apenas uma articulação, com início abrupto durante a noite ou de manhã cedo. A articulação fica extremamente dolorosa, vermelha, quente e inchada. Pode existir febre baixa.

A crise desaparece, mesmo espontaneamente, em três a dez dias, podendo ocorrer descamação da pele sobre a articulação afectada. Depois de um primeiro ataque, só uma pequena parte (menos que 10%) dos doentes não vem a sofrer ataques subsequentes. Com a continuação dos ataques e com o aumento da sua frequência, estes tornam-se poliarticulares e persistem durante mais tempo.

A articulação mais frequentemente atingida pelas artrites gotosas é a da base do primeiro dedo do pé (“joanete”), mas também o grosso do pé, calcanhar, tornozelo, joelho, punho, cotovelo e dedos das mãos podem ser sede de artrite gotosa.

Os tofos gotosos começam a aparecer aproximadamente dez anos após o primeiro ataque, em doentes não submetidos a tratamento. Estes tofos podem ocorrer em qualquer localização.

O diagnóstico certo é feito através da identificação microscópica dos cristais de MUS no líquido das articulações comprometidas ou nos tofos gotosos. Radiologicamente, as imagens podem ser inteiramente normais (durante os primeiros períodos intercríticos), apresentar edema dos tecidos moles periarticulares (durante as crises agudas de gota) ou revelar destruições articulares e ósseas mais ou menos importantes (quando existe gota tofácea crónica).

Prof. Jaime C. Branco
Presidente da Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas

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